RESISTÊNCIA TIMORENSE DEPENDE DA BBC - Breve História da BBC - FINAL
Depois
da infância e influência da Secção
Portuguesa, bem como do importante papel desempenhado pela Secção
Francesa, durante e depois da Guerra, concentramo-nos na tradição
da credibilidade e no papel desempenhado pela Emissora em relação
a Timor-Leste
Tradição
de credibilidade
As
transmissões do Serviço Mundial da BBC eram seguidas
com a máxima religiosidade e, são ainda hoje, aceites
com cega credibilidade em todo o mundo, especialmente nos países
de regimes ditatoriais ou em crise.(*).
No
meticulosamente preparado "Guia dos Editores" e no capítulo
de Imparcialidade, lê-se:
"A
imparcialidade é o âmago da BBC. Como significa o
núcleo e a própria existência da BBC não
há programa que esteja isento. Por isso, a todo o editor ou
produtor é requerida a maior compreensão,
justiça e respeito pela verdade." (+)
Enquanto
a tradução dos comentários noticiosos, embora
fiel ao original permitia lirismos, os noticiários, além
das contrições de espaço, tinham de ser vertidos
na mais rígida prosa. As alterações à
versão original em Inglês só eram feitas com o
específico consentimento do editor da Redação
Central de Notícias (RCN), que funcionando ininterruptamente,
nela trabalhavam cerca de 120 jornalistas a produzir mais de 200
boletins de notícias. Porém, e a partir dos anos 70, as
secções passaram a conhecer maior independência e
criatividade.
A
BBC, uma das principais organizações da comunicação
social, com 200 correspondentes mundiais estratégica-geograficamente
colocados, proporciona uma cobertura completa e imediata, que faz
inveja a muitas das suas rivais ocidentais, especialmente a Voz da
América. Além disso, os Serviços de Escuta da
BBC, localizados em Caversham, Reading, a cerca de 80km a ocidente de
Londres, com pessoal a escutar permanentemente as principais
emissoras mundiais, complementam uma cobertura sem rival. Esta
cobertura era assistida pelas agências de notícias de
que chegaram a estar instaladas 15 máquinas de telexes, na
RCN, cujo ruído ensurdecedor foi mais tarde suprimido pelos
técnicos da casa. Por norma, a RCN, dividida em regiões
geográficas sob a responsbilidade de um editor, não
transmitia uma notícia proveniente de uma só agência
sem que fosse corroborada por outra, ou pelo correspondente da BBC
mais perto do local do acontecimento.
Isso
não sucedia, porém, com a notícia proveniente ou
do correspondente ou dos Serviços de Escuta da BBC situado em
Caversham, que era imediatamente transmitida no noticiário
mais próximo.
Primeira
com as notícias: Hungria, Checoeslováquia, Cuba e
Médio Oriente...
Durante
o longo período do Comunismo e da predominante Guerra Fria,
independentemente dos esforços por parte da então União
Soviética em bloquear a audibilidade da BBC, gastando verbas
astronómicas, foram inúmeros os exemplos de orgulho
para quem trabalhava em Bush House. Desde a invasão da Hungria
pelas tropas soviéticas, em 1956, para suprimir as
manifestações estudantis, à crise dos mísseis
soviéticos em Cuba, em 1962, em que o presidente John Kennedy
lançou o ultimato ao dirigente soviético Nikita
Khrustchev para que fossem removidos, e à guerra
israelo-egípcia em 1967, seguida da resposta do Egipto e da
Síria, na Guerra Yom Kippur, a 6 de Outubro de 1973, os
exemplos são inúmeros.
No
caso da invasão da Hungria, o mérito foi dos Serviços
de Escuta, que seguiam os acontecimentos a par e passo, incluindo a
audição de rádio-amadores. A notícia da
invasão surgiu depois de terminada a transmissão normal
da Secção Húngara. Quando estava a ser
mobilizado o pessoal para a transmissão especial, com chamadas
de emergência, acordando locutores e pessoal de apoio e
imediatamente transportados para Bush House, em que se seguiu a
transmissão ininterrupta de emergência, o embaixador da
Hungria em Londres teve conhecimento da notícia graças
à BBC. Em relação aos mísseis soviéticos
em Cuba, como na altura ainda não existiam comunicações
telefónicas directas, ou "Linha Vermelha", como veio
a ser chamada, entre Washington e Moscovo, como Khrustchev e os
seus assessores sabiam da existência dos Serviços de
Escuta, estes, mal ouviram a resposta do dirigente soviético,
imediatamente foi mandada a informação para Washington,
pelo que dois minutos depois era evidente o alívio do
presidente John F.Kennedy ao ter conhecimento, por meio da BBC, que a
crise iminente, que poderia ter levado à Terceira Guerra
Mundial, tinha, felizmente, sido resolvida (1).
Quanto
às guerra israelo-egípcias e a de Yom Kippur, graças
à eficiência da BBC ouvintes de todo o mundo, mas
particularmente os dos países envolvidos e outros vizinhos
árabes, acompanharam de perto e, em pormenor, todos os
acontecimentos. Segundo ministros do governo britânico da
época, os presidentes dos países em disputa
admitiram-lhes
que
faziam questão de acompanhar o desenrolar dos acontecimentos
por meio da BBC, particularmente devido ao facto da imparcialidade e
da rapidez da transmissão das notícias.
Mas
não só...
Outros
exemplos importantes, sobre a influência da BBC,
particularmente a nível individual, destacam-se, a prisão
de Lech Walesa (dirigente sindical polaco, que veio a ser Presidente
da Polónia (1990-1995)), devido à sua militância
no movimento sindical Solidariedade. Foi o contacto que manteve com
as transmissões da BBC, que com o rádio sempre ligado,
como ele o afirmou, "levou os guardas ao
desespero pelo que tiveram de recorrer à desculpa de que se
tinha avariado"(2). O golpe de estado
contra Mikhail Gorbatchev e os refens de Beirute, principalmente
Terry Waite e John MacCarthy, constituiram outro ponto alto para o
pessoal da BBC em Bush House.
Quando
decorria o golpe de estado para depor o presidente Mikhail
Gorbatchev, que se encontrava sob residência vigiada na dacha
da Crimeia, em Agosto de 1991, o contacto que teve com o exterior,
como ele confessou, foi a BBC. Falando depois aos jornalistas no
Centro de Imprensa do Ministério dos Negócios
Estrangeiros, em Moscovo, Gorbatchev referiu-se ao facto de que com
as linhas telefónicas cortadas, subitamente lembrou-se do
poder da rádio. " Com tudo cortado para o mundo exterior,
deparámos com um velho rádio que reajustámos a
antena para ouvir as emissoras estrangeiras. Deparámos com a
melhor de todas, a melhor de todas, a BBC." (3)
Outro
importante exemplo e muitas vezes citados pelos próprios, foi
o papel também desempenhado pela BBC aquando do longo
sequestro de Beirute que envolveu, principalmente o professor
americano Tom Sutherland, e os britânicos Terry Waite e o
jornalista John McCarthy, nos meados de 80 (Terry Waite, que tentava
libertar os refens, como enviado do Arcebispo de Cantuária foi
detido a 20 de Janeiro de 1989 e só quatro anos depois
libertado). Sem contacto com o mundo exterior, principalmente para
Terry Waite, cujo irmão, John, era jornalista da BBC, este
importante dirigente religioso tinha o lenitivo de ouvir não
só as palavras de conforto do irmão, como as peças
de música predilectas, que, como ele próprio revelou,
"me mantiveram vivo". ção idêntica
aconteceu com a franco-colombiana, Brigit Betancourt, a famosa
captiva das forças colombianas de resistência - FARC,
que foi libertada em Julho de 2008. Em entrevista à BBC
Televisão (4) afirmou que a BBC foi a preciosa companhia
durante os seis anos de detenção na selva. "As vozes
dos rapazes que pareciam compreender-me e falar directamente para mim
foram o meu alento e que registo para sempre. Obrigado BBC".
Os
casos são inúmeros, como o exemplo de um ouvinte
búlgaro, cuja carta conseguiu escapar à forte
vigilância postal da época. Escrevendo da sua cidade
natal, Sofia, para a BBC, disse, a certo passo, que : "Desde
1943 que sou ouvinte da BBC, quando as autoridades selaram, a lacre,
o meu Telefunken para evitar que ouvíssemos a BBC. Embora o
mais novo da família, fui o primeiro a quebrar o lacre."
Por
tudo isto, compreende-se o significado das palavras proferidas pelo
então secretário-geral das Nações Unidas,
Koffi Annan, em 1998, ao afirmar que o Serviço Mundial da BBC
"é,
talvez, a maior dádiva deste século por parte da
Grã-Bretanha ao mundo".
Portugal
e Timor-Leste
Casos
idênticos passaram-se em relação a Portugal,
principalmente durante o longo período de Salazar. Contava a
então representante da BBC em Lisboa, a já citada
Margery Withers, que foi levada muitas vezes a casa de ouvintes,
que, em silêncio, ouviam atentamente as transmissões da
BBC.
Desconhecem-se
provas oficias de que o regime de Salazar proíbisse a audição
das emissões da BBC, principalmente durante a guerra, mas o
autor lembra-se perfeitamente, por comentários feitos por
pessoas adultas na altura de que, efectivamente, existiam pressões,
pois era normal tentar-se ouvir a BBC às escondidas. E, como
já foi referido, a BBC, principalmente durante o chamado Verão
Quente de 1975, era a emissora mais ouvida em Portugal, duas vezes
mais sintonizada que a própria RDP.
Outro
importante pormenor, este em relação a Timor-Leste, foi
o papel desempenhado pela BBC junto da Resistência,
especialmente aquela que predominantemente lutava nas montanhas. Este
episódio, é particularmente grato ao autor, por nele
ter estado directamente envolvido. Quando lhe foi revelado que o
Serviço Português da BBC tinha boa recepção
nas montanhas de Timor-Leste, e que, no início dos anos 80, a
população timorense tinha maiores dificuldades de
acesso ao mundo exterior, o Serviço Português da BBC,
principalmente a emissão das 2000hs, (0400 da manhã do
dia seguinte em Timor-Leste) era avidamente escutada e até
gravada.
Foi
com base nesta informação que o então chefe da
Secção Portuguesa, Dr. António Menezes, e o seu
então também chefe adjunto, Manuel Santana, decidiram
dedicar especial atenção a Timor-Leste. Por isso, a
partir de 1978, Timor-Leste passou a desempenhar um papel mais
importante no conteúdo editorial da Secção,
incluindo uma entrevista importante dada pelo bispo, D. Martinho
Lopes ao autor, que, na altura, se encontrava de visita a Londres e
que deu particular alento à Resistência nas montanhas.
Interessante
mencionar a referência feita por Manuel Santana (nessa altura
já chefe da Secção Portuguesa) sobre o assunto,
no livro de despedida do autor, da BBC, após 28 anos de
serviço.
"Caríssimo
Gilberto,
Um
abraço de despedida com um obrigado pela
dedicação
aos interesses da nossa audiência, Secção
e
Corporação e, não esqueçamos, os anos de
sindicalismo
como não esqueçamos que tudo isso foi
feito
a pensar em África, Europa e,
também, em Timor-
Leste..."
(*)
Ellic Howe, no seu trabalho The Black Game British Subversive
Operations Against the Germans During The Second World War, edição
de Michael Jospeh, London pág.
114, refere-se à transferência, no final de 1942, de
Woburn Abbey para Bush House, da principal organização
dos Serviços Secretos, em operações
subversivas contra os alemães, principalmente no domínio
da Rádio, Directorate of Political Warfare Intelligence.
Porém, o mesmo autor, na sua obra, pág. 154, faz
questão de esclarecer que esse facto nada teve a ver nem
com o controlo dos que ele classifica de "Serviços
Estrangeiros da BBC" nem como o conteúdo editorial por
parte daquele influente Directorado.
O
já referido historiador, BernardWasserstein, na já
citada obra Barbarism and Civilisation, pág. 340 ao
referir-se à reputação e garantia da
informação
da BBC diz que os seus noticiários eram "muitas vezes
ouvidos em segredo, e em grande risco (pois as penalidades eram
severas), em toda a Europa ocupada.
(+)
BBC
- Producers' Guidelines
p.14
(ed. de Nov. de 1996)
No
domínio da isenção e independência dos
governos do dia, a BBC foi ciosa resistindo às várias
tentativas de influência. A primeira, ocorreu
durante
a primeira greve dos mineiros, em 3 de Maio de 1926, em que
Churchill, então ministro das finanças, insistia no
controlo da BBC
durante
a greve, o que foi fortemente resistido por John Reith, a segunda
tentativa ficou a dever-se a Anthony Eden, durante a Crise do Suez ,
em
1956,
enquanto outras fortes tentativas ocorreram tanto durante o período
do ditador Idi Amin do Uganda (1971-1979) e, mais tarde, antes e
durante
a Guerra das Falklands (Malvinas), em 1982 todas elas fortemente
resistidas pelos directores-gerais do período.
(1)
Mais tarde, com a evolução
e sofisticação dos Serviços de Escuta do Governo
(GCHQ), em Gloucester, que até à década de 80
eram
segredo bem guardado, as funções do Serviço de
Escuta da BBC limitaram-se à própria emissora que
também passou a explorá-los
para
fins comerciais com a publicação regular de sumários
impressos das notícias mundiais diárias mais
importantes.
(2)Da
autobiografia de Lech Walesa.
(3)
Conversa com os jornalistas, em 22 de Agosto de 1991, no Centro de
Imprensa do Ministério dos Negócios Estrangeiros em
Moscovo.
(4)
Entrevista dada ao programa da BBC Televisão Talk de 11 de
Julho de 2008.